segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nota Sobre Individualidade

Alguns amigos meus estão cansados de ouvirem-me dizer acerca dos padrões muitas vezes impostos pela mídia e sociedade como um todo. Isso é um fato. Desse modo, origina-se, então, um tipo de individuo: aquele que se deixa influenciar pela imposição comportamental por achar que os padrões são corretos porque ele viu na tevê ou de alguém que possui alta estima televisiva, esse é o “individuo comum”. Uma pessoa nociva.

Por meio da espiral do silêncio a mídia deforma a autonomia individual e inculca mais facilmente a padronização comportamental para fins óbvios como angariar mercado consumidor, por exemplo.

Ora, mas por que o individuo que, passivamente, aceita tais influências – o individuo comum – é um individuo nocivo? Por questões evidentes. Uma vez que teve seu comportamento padronizado, passará discriminar as pessoas que fora dos mesmos padrões estejam, conquanto a mídia também reforce a idéia de “devemos aceitar as diferenças”, não é o que acontece na realidade, pois a mesma mídia que diz para não discriminar o outro é a mesma que discrimina, é a primeira a fazer troça daqueles que não seguem a risca a cartilha comportamental dela – talvez seja um caso de dissonância cognitiva.

Peguemos como exemplo meu amigo Saídy (Ernatan Waslancristian – foto), ele possui uma conduta e estética, enquanto garoto, vistas como “incomuns” (para discorrer dialeticamente), no entanto, por conta disso, não discrimina aqueles que sejam diferentes de si ou de uma regra geral de comportamento, pois, mesmo que inconscientemente, ele percebe que há individualidade (eis o porquê de se chamar individuo, aliás), uma gama de “opções” de conduta que podem ser escolhidas – ou não necessariamente – a fim de que não sejamos, afinal, iguais uns aos outros. Desse modo, fugir dos padrões impostos, por seja quem for, é um dever daquele que se julgue um ser racional, pois ser racional é buscar o melhor para si (autonomia) e para outrem. É como fazer uma obra de arte que nada mais é que um resultado singular de um temperamento singular, fora isso, é estereotipar e degenerar a arte.

Um outro ponto reforça de forma imprescindível o argumento em prol da individualidade comportamental: o simples fato de sermos dotados de racionalidade ensina-nos que não precisamos das mesmas coisas que o outro, pois não possuímos as mesmas vontades que o outro.

Em suma, sejamos o que quisermos, sem que haja, lembre-se, prejuízo para outrem e desse modo, projetemos nossa singularidade da forma que nos melhor aprazer e da forma que melhor possa construir uma sociedade mentalmente mais saudável. E, é claro, não devemos esquecer de que toda a individualidade jamais será exercida plenamente enquanto mantivermos o vício de esquadrinhar a vida alheia, ou melhor: a individualidade alheia.



3 comentários:

Filho Duma Égua disse...

Muito bom texto . Eu diria que a campanha midiática do ''aceite as diferenças'' , pode soar como um paradoxo , pois dentre essa aceitação , pode haver aqueles que ajam diferentes pela não-aceitação.

É um paradoxo interessante , semelhante à questão onde numa sociedade democrática , até o direito de sequestionar a própria democracia é um direito assegurado pela mesma, mas que ainda sim tal forma de pensamento é , não raro , combatida para defesa da mesma .

E aí é que está o nervo desse paradoxo .Como se não bastasse tudo isso , existe ainda a obersação mais acurada e determinada a respeito dos interesses da mídia por trás da 'bandeira da aceitação' .

Pressões de grupos de modo sócio-político , se esse é o mote , podem criar a mentalidade de que seus interesses são atrelados a essa 'aceitação', de modo configurado que as idéias de algum outro grupo de mentalidade antagônica de 'anti-aceitação' seja reprimido e silenciado . Assim sendo , o que seria uma campanha democrática , pode ser uma arma derepressão bem disfarçada .

Aline disse...

Uaaaaau! Mto bom o post.
Terminou de um jeito perfeito, adoro isso, quando textos são bem fechados.

Eu nem preciso dizer que concordo com cada vírgula, afinal, vc bem sabe.

Enfim... Parabéns pelo texto!
\o7

Francis Pereira disse...

Muito bom!

Você foi muito assertivo em suas palavras, mas, por outro lado, temo ser "pessimista" em crer que ainda que a sociedade progressivamente tenha se tornado mais aberta para o diferente, não concerne dizer, contudo, que não esteja atrás de novos padrões.

O diferente que hoje impacta e assusta, seguramente será no futuro, o "padrão aceitável do diferente". Tomemos como exemplo algumas tribos urbanas, excluídas em passado recente, como os surfistas, hippies, "boemios" ou os "malandros convictos", discriminalizadas em curto período, pela maior adesão de membros e apelo do contato, ainda que apenas visual, tornando-se o esteriótipo do divergente - do "estranho comum", do "diferente dentro dos padrões".

Nada mais contraditório, nada mais simbólico para representar nossa sociedade e suas prerrogativas.

Grande abraço!